Uma arte concebida para estudar o inconsciente

Panorama das obras de artes de Arthur Bispo do Rosário, o mais expressivo artista dessa escola no Brasil.
O mundo das imagens do inconsciente.


No verão de 1996, em Maceió, o psiquiatra Everaldo Moreira, na época diretor do Hospital-Escola Portugal Ramalho, publicou mesmo que artesanalmente um caderno denominado Sintonize. Uma massa de textos e imagens contando histórias criadas pelos pacientes psiquiátricos do hospital. Tomei conhecimento dessa experiência inédita por aqui, pelas mãos do médico-poeta Jorge Luiz (in memoria). Voraz na arte da escrita de versos e poemas e com diversos livros publicados, Jorge Luiz é, pra mim, até hoje, a nossa maior expressão do mundo do inconsciente da arte alagoana. 

Essas lembranças me despertaram questionamentos: qual a medida da arte bruta? e, será arte?

O ano era 1945. O francês Jean Philippe Arthur Dubuffet cria o primeiro conceito de Arte Bruta, para ele, “a forma pura e inicial de arte produzida por criadores livres de qualquer influência de estilos oficiais”. O pintor modernista, numa ação ousada, circunscreve nesse paradigma as diversas formas de artes concebidas pelos internos em hospitais psiquiátricos. Essa é uma “escola” que abre conexão entre a mente com o mundo exterior, pela linguagem pictórica.

Poderemos afirmar que se trata de um reconhecimento aos princípios junguianos de tratamento humanizado aos pacientes portadores de distúrbios mentais. Na época, Dubuffet,  rotula como autor símbolo da arte bruta o suíço Adolf Wölfli(1864-1930), que viveu em um asilo de alienados desde 1895 até sua morte.


Obra assinada por Adolf Wölfli. Imagem de domínio público.

Aqui, ao Brasil, esse conceito de Arte Bruta chegou  pelas mãos de Nise da Silveira. Junguiana, ela fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, atualmente, o mais representativo desse estilo na América Latina. O museu conta, segundo últimos levantamentos, com acervo de mais de 300 mil obras. Artur Bispo do Rosário é  a sua mais completa tradução.

Criticas e tensões
Desde o surgimento, a Arte Bruta não é uma unanimidade. Ela abre precedente para um tipo de arte criada pela ciência. Isso faz alguns especialistas torcer o nariz para ela e considerar os resultados artísticos da “forma pura e inicial de arte” (Dubuffet) expressões visuais destituídas de padrões “estéticos” – por outro lado, não atendem as regras de "estética” estabelecida pelo mercado. Já os críticos se apegam ao conceito “feio”, faz confusão entre o significante “arte bruta” com o significado “arte grotesca”, para significar certo mal-estar antecipado.

Para Carmem Lúcia, essa é uma compreensão equivocada. Professora de História da Arte, museóloga e adepta ao livre pensar, segundo ela o problema não está na arte, “mas no olhar limitado ou viciado de quem a vê”. “O fato de ser fora do padrão não implica necessariamente em ser feio. A questão (do feio) está no fato de que é diferente. O preconceito está em imaginar aquela produção como algo que se distância de conceitos pseudos intelectualizados”, acrescentou a professora.

A colecionadora de arte e artista visual Tania Maya Pedrosa tem uma posição mais moderada. “Os caminhos da arte, sempre foram concebidos pelo pensar (imaginário, ou modelos). Já a arte bruta, começou pelos estudos - razão pela qual, esse campo interessa a psiquiatras, sociólogos, críticos, etc.”, defendeu a colecionadora.


Dona de uma vasta coleção particular de arte popular, para Tânia as tantas terminologias diferentes, e cita a exemplo de “singular, fora de normas, mediúnicas, excêntricas e outras”,  “tem um motivo: o de apenas estabelecer divisões, que lhe dão qualidade e valor de mercado”.


Obra de Francis Bacon. Imagem de domínio público.

Ela recupera na memória obras de artistas polêmicos como Cezanne, Van Gogh, Bacon, Rustin, F. Freud, Aloïse e Wölfli, “muito distorcidas esteticamente falando, ou melhor, fora dos contextos acadêmicos? Feias, sim; mas, artisticamente estão dentro do exposto, são lindas e valiosas”, diz entusiasmada Tânia.

Isso ou aquilo, não importa. O feito de Dubuffet se espalhou pelo mundo e trouxe para o centro do debate acadêmico as diversas vivências da arte resultadas da relação entre o psiquismo e o mundo. 

As vivências da consciência e as visões de mundo que elas constituem em cada época foram temas trabalhados pelo filósofo Wilhelm Dilthill. Como ele bem lembra, essas manifestações acabam por traduzir as concreções do espírito objetivo em um tempo. 

A arte Bruta abre um precedente no que se sabe sobre a relação entre arte mente e o mundo exterior, que só a linguagem pictórica traduz.

Em 1948, Dubuffet funda a Companhia de Arte Bruta. Em 1967, realiza uma exposição inédita no Musée des Arts Décoratif de Paris, onde apresenta uma seleção de 700 obras. 

Atualmente, um museu em Lausane (Suíça) se dedica exclusivamente à preservação e fomentação do culto à arte bruta.

Desde 2000, o prêmio EUWARD homenageia artistas que lidam com distúrbios mentais.

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