Nas águas do mar nos olhos do Wado



O que um livro de poesias com ilustrações assinadas pelo próprio autor tem a ver com a gente, do blog?

Duas coisas me chamaram a atenção no Água do mar nos olhos: a boa qualidade de algumas ilustrações (depois fiquei sabendo que eram 25 telas de uma recém-exposição do escritor) e uma questão colocada pela produtora musical Kassin Kamal, autora do prefácio.

“Letras de musicas podem ser consideradas poesias?”, provocou Kamal.

É! São dois gêneros muito próximos, mas com diferenças e funções marcantes (nem todos concordam com isso, mas...). A letra da musica precisar de um ritmo, do auxílio de instrumentos musicais que lhe dão vitalidade e sentido; já a poesia, embora ritmada, joga com a estrutura da língua com a intenção de alcançar objetivos mais subversivos.

Tenho a sensação de que a poesia é a supremacia do humano sobre a língua, que tripudia dela com quando lindamente a subverte.


Água do mar nos olhos, do Wado, resume bem o sentido que se tem de artista multicultural desse cantor e compositor radicado em Alagoas. Já sabíamos de suas qualidades musicais, porem, mais uma vez, ele nos surpreendeu a todos mostrando habilidades com tintas e o desenho. O livro de Wado amplia sua contribuição ao nosso tão desnutrido cenário cultural.

Lendo alguns escritos dele e ainda tomado pela controvérsia dialética entre letra de músicas e poesia me perguntei como certos versos se comportariam se colocados sobre uma trilha sonora que lhes desse nova camada de sentido ao sentido preexistente. Mas, nada que comprometesse o todo da obra. Apenas, reforçou minha ideia sobre as marcantes diferenças e funções entre os dois gêneros.

As telas, em papel couchê, refratam uma versão pessoal da vida. Mostram um Wado existencialista no tema, na cor e na forma, que supera a dura batalha do fazer arte transitando por diversos estilos artísticos. Bem diferente do teor ecumênico e o lirismo de alguns poemas.



Por trás da cara de surfista veterano da praia do Francês, Água do mar nos olhos apresenta um Wado em sintonia com seu tempo e espaço; um cara relacionado com seu entorno e atravessado por arquétipos de um mundo mundializado, refletidos nos diversos sentidos que se materializaram na experiência de leitura no livro.

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